Continuando com o que foi dito ontem, uma das maiores dificuldades com relação ao evento foi a organização: imitando eventos com a INTERCOM, ABRALIC e ANPOLL, as comunicações tinham o tempo de 15 minutos de apresentação e estavam organizadas por mesas com horários similares. Isso causa um problema para a nossa cobertura, pois tivemos de nos centrar em determinadas mesas e a elas que teceremos comentários.
A primeira mesa visitada foi a mesa 3 - HQ e Literatura - que contou com a participação desse que vos escreve, bem como de Allana Miranda, André Filho, e uma dupla Chantal Herskovic e Akemi Alessi, todos preocupados com as interfaces entre HQ e problemas literários. Obviamente, não falarei de minha apresentação para não enfadar o leitor – digo apenas que se trata de uma revisão teórica do artigo “O mito do Superman” publicado por Umberto Eco em 1971, mostrando problemas em sua análise do Superman e tentando atualizar os problemas apresentados por ele.
Allana Miranda versou sobre as relações entre cinema, quadrinhos e literatura acerca da adaptação de Branca de Neve. A mídia fonte, é claro, é a literatura em que a personagem aparece pela primeira vez ao público. Allana nota que para cada mídia, uma série de questões são respondidas e mais: para cada mídia a questão da voz narrativa apresenta-se de maneira diversa, ou seja, apesar do mesmo enredo cada versão de Branca de Neve apresenta uma série de abordagens diversas que possibilitam uma discussão intersemiótica da personagem em questão.
André Filho proporcionou à plateia uma leitura de caráter conceitual sobre o que é necessário para tornar o herói realmente um personagem representativo. Com uma análise voltada para o aspecto sociológico, o mestre em Letras apresentou-nos a questão da aceitação do público (interno ou externo da obra apresentada) e o reconhecimento heroico, o que pode causar um determinado paradoxo nessa mesma questão.
Chantal e Akemi apresentaram uma leitura da obra Fagin, o Judeu, de Will Eisner. Elas trabalharam com a tradução intersemiótica como uma possibilidade de derrubada do estereótipo do judeu no século XIX e sua releitura no século XXI. Para esclarecer, Fagin é uma personagem do romance de Charles Dickens, Oliver Twist. Como as versões do romance inglês eram ilustradas, a imagem de Fagin que ora era apresentada mostrava uma personagem levada sob a carga negativa do imaginário referente ao judeu. Eisner em sua releitura da personagem tenta mostrar o quanto Dickens pavimentou o preconceito posterior com relação aos judeus. A apresentação termina com o famoso diálogo de Fagin e Dickens via Eisner mostrando o quão fútil uma atitude tipológica é para um ficcionista.
A segunda mesa assistida foi a 16 – HQ e sociedade – em que tivemos as análises de Douglas Pigozzi, Ana Kelma, Hugo Leonardo e Maria Helena Pinho (mais uma dupla) e T'Challa, o Príncipe de Wakanda.
Douglas debruçou-se na obviedade: numa tentativa de analisar V de Vingança, de Alan Moore, ele decupou os desenhos que fazem parte do cenário apresentado pelo Sir e preocupou-se tão somente com os desenhos, esquecendo o texto. Isso tornou sua análise uma sucessão de lugares comuns da sociologia implementada a qualquer objeto da chamada cultura de massas. Uma pena com relação à profunda análise social implementada por Moore e para o meu cérebro que gritava “Bugman, Bugman...”
O pior ainda viria: Ana Kelma, que confessou não ler quadrinhos desde a infância, tentou e, repito, tentou analisar o papel social dos heróis das HQ americanas. Até aí nada diverso do que fizera André na mesa anterior, mas havia um agravante: um trabalho acadêmico deve se pautar pela escolha de fontes que ampliem o conhecimento. Por exemplo, se afirmo que Eco está errado, tenho de procurar os antecedentes do pensamento dele, entender que Eco estava a pautar sua análise com relação a fundamentação mítica de empréstimo concernente à Igreja Católica, para só então demonstrar que esse processo ocorre desde a Roma Antiga e que, por isso, não há novidade na apresentação de Eco. Ana Kelma apresenta uma sucessão de lugares-comuns tão grande que não vale a pena dissertar sobre o assunto.
Hugo Leonardo e Maria Helena Pinho prestaram contas aos pesquisadores sobre a primeira biblioteca pública sobre Histórias em Quadrinhos, refiro-me à biblioteca Henfil que, há 20 anos, mostra a força dos quadrinhos na sociedade brasileira.
Por mera educação diplomática, T’Challa foi o último a se apresentar, seu trabalho é uma problematização psicológica acerca da criação dos super-heróis dos quadrinhos. Ele aborda o tema interessado em demonstrar como determinada personagem coloca-se no mundo dos quadrinhos para suprir um determinado problema psicológico de seu tempo e, para isso, lança mão de uma breve análise dos problemas concernentes à contemporaneidade da criação de alguns personagens dos quadrinhos norte-americanos.
Inté.
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